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Sismo 1980

A fajã de Santo Cristo foi formada há 250 anos pelo terramoto de 1757, e que em 1891 contavamse 111 habitantes na fajã, justificandose mesmo a existência de uma escola primária. Em 1960 foram inauguradas duas infraestruturas de enorme importância: o Posto Público de Telefones e uma rede eléctrica alimentada por um pequeno gerador. Em 1980 deuse um grande sismo na Ilha de São Jorge que isolou a Caldeira de Santo Cristo, cortando ambos os acessos. Todos os habitantes foram evacuados pelo helicóptero da Força Aérea Portuguesa. Muitos dos habitantes nunca mais regressaram, emigrando ou mudando a sua residência para outros pontos mais seguros da ilha.

Lenda da Fajã da Caldeira de Santo Cristo

Há muitos anos, como agora ainda acontece, por vezes, as pessoas das várias freguesias de S. Jorge iam às Fajãs passar partes do ano com os seus gados ou apenas durante uma parte do dia para pescar, apanhar lapas. Numa das Fajãs havia uma linda e mansa lagoa de água salgada. Ali apanhavam amêijoas que se desenvolviam abundantemente nas águas límpidas e mansas. Outras vezes apanhavam lapas, polvos, moreias, por entre as pedras da costa, nas poças que ficavam nas redondezas da lagoa. Um certo dia, um homem de cima veio cá abaixo à caldeira. Andou muito tempo por um atalho custoso e apertado e, quando chegou junto à caldeira, sentouse para descansar antes de ir pescar.

As pernas até lhe tremiam do esforço da descida, mas, com a vista que dali se desfrutava, depressa se sentiu descansado. Quando vagueava com o olhar pela lagoa, deparouse com um objecto que lhe parecia ser uma imagem do Senhor Santo Cristo. Levantouse logo e pegou na imagem que, apesar de estar metida na água, não estava nada apodrecida. Ficou todo contente com aquele achado. E não era para menos porque, naqueles tempos, achar uma garrafa na costa ou um pranchão era já uma sorte, quanto mais um santinho tão bonito. Quando voltou para casa ia tão satisfeito que a difícil subida nem lhe custou nada. Puseram o Santo Cristo no melhor quarto da casa. Mas no outro dia pela manhã, para desgosto e espanto de toda a família, o santo já tinha desaparecido.

Procuraramno e vieram encontrálo no areal, nas margens da caldeira. E o episódio repetiuse. Por fim alguém disse: Santo Cristo quer estar lá embaixo à beira da caldeira. O povo juntouse e decidiu fazer uma igreja. Pensaram levantála no outro lado da lagoa, mas, quando tentaram levar para lá a pedra, não conseguiram. O lugar era ali, perto de onde Santo Cristo tinha aparecido. Depois de muito sacrifício e trabalho, a igreja ficou concluída e lá puseram a imagem. Assim, aquela linda Fajã passou a chamarse Caldeira do Santo Cristo. E o povo que gosta muito de se divertir para esquecer trabalhos e sofrimentos, em pouco tempo começou a fazer uma festa muito grande e bonita, onde os festejos religiosos se completavam com diversões profanas. Bailavase alegremente e era frequente ouvir, durante a dança, os homens entoarem esta cantiga:

O Senhor Santo Cristo
Onde foi fazer morada?
Para a rocha da Caldeira,
Perto da água salgada.
A certa altura o senhor padre, por qualquer razão, não queria o Santo Cristo na igreja e decidiu leválo para casa. Pegou na imagem, mas não se conseguiu mexer, os pés ficavam aferrados ao chão. Disse então ao sacristão: Ajudame aqui que eu não posso andar. O sacristão bem tentou, mas por fim confessou: Ó senhor padre, eu também não consigo dar passada! Então deixase o santinho aqui – disse o padre. E assim foi. Logo os pés e as pernas ficaram ágeis e o padre e todas as pessoas se convenceram que era ali que Santo Cristo tinha de ficar.

Ângela FuratadoBrum, Açores, lendas e outras histórias, 1999.